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Cidades

As empregadas de Paulo Guedes na era da indignação permanente


Todo mundo está indignado porque o ministro Paulo Guedes disse que o dólar alto é bom para a economia do país e que empregadas domésticas não tinham que ficar viajando para a Disney. Antes disso, todo mundo estava indignado porque alguém teve a brilhante ideia de alugar micro-ondas para que as pessoas esquentassem suas marmitas, porque “Democracia em Vertigem” perdeu o Oscar, porque um tal capitão Adriano foi assassinado, porque Paulo Guedes (de novo!) chamou os funcionários públicos de “parasitas”, porque isso e porque aquilo.

(No momento em que escrevo este texto, ganha corpo a indignação com o Papa Francisco por ele ter recebido Lula).

Vivemos num estado permanente de
indignação coletiva. E todo mundo com uma conta numa rede social faz questão de
expressar essa indignação que pretende ficar virtualmente marcada para sempre
na história. É como se o homem de Lascaux, em vez de desenhar animaizinhos e
pessoas-palito nas paredes da caverna, tentasse marcar sua presença neste mundo
por meio de insultos contra o trovão ou o vulcão – forças, note bem, sobre as
quais ele não tem nenhum controle, assim como não temos nenhum controle sobre
as bobagens que autoridades ou nossos semelhantes comuns dizem.

A que leva tamanha indignação? A
mais indignação. Porque, a fim de refutar uma bobagem qualquer, não raro os
indignados cometem bobagens ainda maiores, num círculo para lá de vicioso. O
poder viciante da indignação é tamanho que as pessoas que ousam pedir calma e um
mínimo de racionalidade no debate público costumam ser recebidas com pedradas
e, surpresa!, insultos indignados.

Não se trata, aqui (e tenho
certeza de que o indignado de plantão já pensou nisso), de “passar pano” para
as bobagens ditas pelo ministro Paulo Guedes ou por quem quer que cometa a
ousadia de dizer algo que o ouvinte (ou leitor) sensível considereindignode seus preciosos ouvidos (ou
olhos). É óbvio que erros devem ser apontados, questionados e, se possível,
corrigidos. O problema é que, quando todo mundo está indignado o tempo todo por
qualquer coisa, ninguém está de fato indignado por nada. E os erros acabam
caindo no anedotário, em vez de serem corrigidos e, com alguma sorte e esforço,
perdoados.

Atalho cognitivo

O jovem, seja ele aquela pessoa
que acabou de ler Slavoj Žižek no centro acadêmico ou o empresário de
meia-idade todo tatuado que vai trabalhar de patinete calçando seu indefectível
all-star de couro, é o mais suscetível a se indignar por qualquer coisa –
indignação que ele simplesmente não consegue conter e corre para expressar na
parede das cavernas virtuais. O discurso juvenil indignado é uma profusão de
pontos de exclamação e expletivos dos mais variados tipos, tudo para dizer que
tal situação, fala ou comportamento éinaceitável,
pô!

E por que ele age assim? Porque a
indignação é o caminho mais fácil para se dar vazão a suas opiniões sem outro
embasamento que não a intuição – o que em inglês é apropriadamente chamado degut feeling,isto é, aquela sensação que
vem das entranhas.

Vale reparar ainda que a
indignação é, por definição, sempre virtuosa. É sempre uma pessoa que, por
alguns segundos, se coloca num pedestal, ou melhor, num mirante de onde ele
testemunha, impotente, as maiores atrocidades humanas. De mãos atadas pela
preguiça, só lhe resta expressar sua indignação diante de um mundo que parece
saído de um pesadelo de Hieronymous Bosch.

A indignação é um atalho
cognitivo, um clichê comportamental que pretende, mas quase sempre fracassa,
mudar determinado aspecto da realidade. Muito mais eficiente, mas difícil, seria
tentar compreender o contexto em que uma coisa foi dita ou feita e pressupor
sempre (como ensina Jordan Peterson) ignorância antes de má-fé. Isso serve para
tudo, desde as empregadas turistas de Paulo Guedes até os devaneios do Youtuber
de cabelos coloridos, sem falar nas diatribes de um depoente muito louco numa
CPMI qualquer.

Referências literárias

O que me traz a três importantes referências literárias que, cada uma a seu modo, tratam da indignação. A primeira é do clássico1984,de George Orwell, muito citado e pouco lido e, quando lido, interpretado apenas pelo viés macropolítico e quase nunca como o romance-espelho que realmente é. Na sátira orwelliana, uma das medidas para assegurar a obediência dos cidadãos é o Dois Minutos Ódio, durante os quais uma tela exibe imagens e falas de inimigos e opositores do Partido (Ingsoc). É um ritual diário de purificação, depois do qual as pessoas caninamente se sentem virtuosas por sua lealdade para com o regime totalitário.

“A pior coisa dos Dois Minutos de Ódio era que ninguém era obrigado a participar, mas ao mesmo tempo era impossível não fazer parte”, escreve Orwell. “Depois de trinta segundos, já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e desejo de vingança, uma vontade de matar, de torturar, de destruir rostos com uma marreta, parecia fluir pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a gritar, os rostos deformados pela fúria. E ainda assim a raiva que se sentia era uma emoção abstrata e sem direção, que podia ir de um alvo a outro como a chama de uma lamparina”.

Outra é do bom e velho Leon Tolstoi emUma Confissão.Neste trecho, Tolstoi reflete sobre a verborragia indignada da sua juventude, indignação essa que ele compartilhava com os outros aspirantes a intelectuais.“Estávamos todos convencidos de que era necessário falar, escrever e publicar o mais rápido e o máximo possível, e que tudo isso era o melhor para o bem da Humanidade. E milhares de nós, nos contradizendo e sendo violentos uns com os outros, publicávamos e escrevíamos – ensinando os outros. E, sem notarmos que não sabíamos nada e que para a simples pergunta “o que é bom e o que é o mal?” não tínhamos resposta, falámos todos ao mesmo tempo, sem darmos ouvido uns aos outros, às vezes apoiando e elogiando só para recebermos apoio e sermos elogiados, às vezes ficando com raiva uns dos outros – como num hospício”.

Qualquer semelhança com nossas
redes sociais cotidianamente enfurecidas não é mera coincidência.

Por fim, o escritor David Foster Wallace tratou dessa reação instintiva ao que enxergamos como uma injustiçainaceitávelem seu famoso e imprescindívelThis is water[Isso é a água], transcrição de um discurso de formatura que ele fez em 2005. Numa das passagens mais memoráveis, Wallace exorta os ouvintes a refletirem melhor sobre tudo aquilo que nos gera indignação. Ele cita como exemplo a indignação causada por um motorista que nos corta a frente no trânsito. Buzinamos e xingamos e instintivamente acreditamos que o motorista apressado nada mais é do que um apressadinho idiota. Mas, pergunta Wallace, o que sabemos de fato sobre o motorista apressado? E se ele estiver a caminho do hospital e com um filho doente no banco do carro?

O que ele propõe (e eu humildemente ecoo neste texto) é que tenhamos um olhar mais generoso diante das pequenas e grandes irritações do cotidiano, desde o caixa de mercado que não parece muito interessado no seu trabalho e o motorista agressivo no trânsito, passando, necessariamente, pelo que falam nossos líderes, nossos inimigos políticos e também nossos semelhantes enfurecidos.

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