Avocado Toast em perigo: crise com abacate ameaça o querido prato

Depois da febre, o mal-estar. O aumento vertiginoso do consumo mundial de avocado, como é conhecido por aqui o abacate hass, tem provocado desajustes na cadeia produtiva de grandes países fornecedores. É o caso de México, Chile e Nova Zelândia. Na origem, a natureza dos problemas é diferente. Mas a crise do abacate, em todo canto, tem algo em comum: saiu do campo (e das torradas) para as páginas do noticiário internacional de polícia.

O resultado da crise é o aumento dos preços e menor disponibilidade do produto, avidamente consumido com torradas em cafés hipsters e exibido em timelines do Instagram pelos quatro cantos do mundo. Até mesmo o mercado brasileiro, de modo geral alheio ao hype da fruta, tem sofridos com os reflexos da crise do avocado.

O apuro mexicano é social. No país, que produz quase um terço de todo o abacate consumido no mundo, o fruto ganhou o nome de “ouro verde”. Com clima e terroir perfeitos para o crescimento dos abacateiros, a produção se tornou um negócio extremamente lucrativo. Tão lucrativo que cartéis de droga começaram a fazer parte da concorrência. Acredita-se que as organizações criminosas tenham criado cidades-Estado, independentes do governo local, forjadas à abacate e armas.

Tancítaro, município do estado de Michoacán, é um exemplo. Professor mexicano da Earth University, na Guatemala, Carlos Demerutis conta, em conversa com o Paladar, que os criminosos ateiam fogo em florestas para criar novos “ambientes produtivos” para a fruta.

Como se não bastasse a corrida armada envolvendo a fruta, uma crise na distribuição de combustíveis no país latino-americano pode prejudicar o escoamento do produto. Às vésperas do Super Bowl, final do campeonato de futebol americano que atrai milhões de espectadores, os norte-americanos podem ficar sem o principal acompanhamento para os seus tacos.

No Chile, com o aumento da demanda externa, produtores também começaram a utilizar formas criativas, e criminosas, para manter o fluxo de produção em alta. Na província de Petorca, na região de Valparaíso, o governo encontrou diversas tubulações subterrâneas projetadas para desviar o fluxo de rios e irrigar plantações de avocado.

 

Os desvios são a causa de uma enorme crise de abastecimento de água na região, que ameaça o bem-estar da população. Engenheiro agrônomo da Ceagesp, Gabriel Bittencourt afirma que o clima árido do país faz com que as plantas necessitem de uma quantidade muito maior de água para dar frutos. Sobra pouco para os humanos.

A crise na Nova Zelândia também foi parar na delegacia. Como noticiado no New York Times, após dois anos de baixa produtividade nos pomares locais, os preços subiram muito e a fruta começou a ser roubada nos pés para ser vendida em um incipiente mercado negro.

As autoridades locais afirmam que são apenas alguns casos isolados de pessoas que não conseguiram controlar a crise de abstinência. Mas, como as leis locais impedem a importação do produto, os neozelandeses terão que esperar de quatro a cinco anos para que a fruta volte a ser encontrada facilmente.

Amplamente noticiada lá fora, a crise do abacate desencadeou até um boicote de chefs e restaurantes na Irlanda e na Inglaterra. Mas a produção não para de crescer. Segundo a FAO, braço das Organização das Nações Unidas para alimentação e agricultura, foi de 3,5 milhões de toneladas, em 2007, para 5,9 milhões de toneladas, em 2017.

Diferentão
O Brasil também produziu mais. Mas o mercado nacional é um caso à parte. O mundo todo consome basicamente só o abacate hass. Aqui, consumimos outras variedades, chamadas de abacates tropicais, como quintal, fortuna e breda. Em 2017, só 2% das 46 mil toneladas de abacate vendidas na Ceagesp eram da variedade disputada a tapas pelo mundo. Jonas Octávio, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Abacate, acredita que os produtores brasileiros ainda não entenderam a dimensão desse mercado, por isso ainda não somos relevantes no mercado externo.

A produtora mais relevante de avocado no Brasil é a Jaguacy, de Bauru. A empresa comanda praticamente sozinha o mercado interno de avocado e criou mecanismos para driblar a entressafra brasileira, que vai de outubro e fevereiro. Além de importar avocados chilenos nos períodos de baixa produtividade, desenvolveu uma polpa da fruta que pode ser congelada. Produzida de março a setembro, é vendida no final do ano.

Apesar de todas as medidas preventivas, no entanto, o problema chegou ao consumidor brasileiro. Restaurantes de São Paulo têm se desdobrado para manter o produto no cardápio. Hugo Delgado, da Taqueria La Sabrosa, conta que além da fruta, tem encontrado dificuldades para adquirir a polpa da Jaguacy, essencial no preparo do guacamole. A solução foi misturar hass e o abacate brasileiro. “Mas não é o ideal.”

Na Padoca do Maní, Sid Correa, coordenador de produção da casa, substitui a tostada verde, feita com a pasta, e a salada de quinoa, com pedaços da fruta, por outros produtos nos dias em que está sem o hass. O Habitual, que também tinha na torrada um de seus carros-chefe, tirou a fruta do cardápio.

Até nas feiras livres o problema aparece. “Normalmente, eu vendo cinco ou seis unidades por R$ 10. Agora, estou vendendo por R$ 20”, diz Rogério Lemos, dono de uma barraca na Mourato Coelho, em Pinheiros. “Esses vem do Chile, cotados em dólar”.

É abacate ou avocado?
O abacateiro tem sua origem em uma região que vai do Peru até o México, incluindo toda a América Central e as Antilhas. Daí surgiram três raças: antilhana, guatemalense e mexicana. Cada uma delas possui exigências climáticas específicas e, consequentemente, tem sabores, texturas e formas diversas.

É daí que vem a diferença entre os abacates fortuna e quintal, os mais consumidos por aqui, e o hass, que vai bem em pratos salgados (na torrada, no guacamole) e ficou conhecido no Brasil como avocado. Enquanto as nossas versões da fruta têm origem guatemalense e antilhana, ou híbridos entre elas, na América do Norte encontra-se uma mistura das raças mexicana e guatemalense. Mas é tudo abacate. Avocado é somente a tradução inglesa do nome da fruta.

Gabriel Bittencourt, da Ceagesp, explica que as variedades que fazem mais sucesso entre os brasileiros, e que vão na vitamina e no creme doce, têm baixo teor de óleos e alto teor de água nas suas composições. São conhecidas hoje em dia como abacates tropicais e crescem bem em temperaturas mais altas. O hass, em contraste, tem grande quantidade de óleos e baixa concentração de água. E vai melhor em climas subtropicais. Outra diferença essencial é o tamanho dos frutos, com o avocado sendo consideravelmente menor que seus parentes mais consumidos no Brasil. Por aqui, a maior parte da produção vem de São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

Fonte: Metropoles
Author: Agência Estado

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