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Cidades

Em novas conversas, Deltan relata que desembargador do TRF-4 achava provas contra doleiro ‘fracas’


SÃO PAULO – Em nova divulgação de conversas entre membros da força-tarefa da
Lava-Jato
feita pela revista “Veja” em parceria com o site “The Intercept”, o procurador
Deltan Dallagnol
diz aos seus colegas que o desembargador João Pedro
Gebran Neto
, relator dos processos da operação na segunda instância, achava fracas as provas contra o doleiro
Adir Assad
durante o julgamento de um processo em 2017. Deltan pede para outro procurador sondar se Gebran tinha intenção de inocentar o réu.

Uma eventual absolvição do doleiro pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (
TRF-4
) preocupava o Ministério Público Federal (
MPF
) que, na época, negociava a
delação
premiada de Assad. O doleiro, condenado em primeira instância, acabou tendo a sentença confirmada pelo TRF-4 por 3 votos a 0.

A primeira menção a Gebran, segundo a “Veja”, aparece numa discussão sobre a delação de Assad no grupo de procuradores da Lava-Jato no aplicativo Telegram na tarde de 8 de fevereiro de 2017. “O Gebran tá fazendo o voto e acha provas de autoria fracas em relação ao Assad”, afirma Deltan.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, durante solenidade em Brasília, em maio Foto: Jorge William 20-05-2019 / Agência O Globo
Foto: Jorge William 20-05-2019 / Agência O Globo
O ministro Sergio Moro Foto: Jorge William / Agência O Globo
Foto: Jorge William / Agência O Globo

A reportagem indica que Moro e Dallagnol combinaram atuações na Operação Lava-Jato. Em uma das conversas pelo aplicativo Telegran, Moro cobra agilidade da força-tarefa. “Não é muito tempo sem operação?”, questionou.

O prédio do tríplex no Guarujá Foto: Marcos Alves / Agência O Globo
Foto: Marcos Alves / Agência O Globo

A reportagem cita ainda mensagens que sugerem dúvidas dos procuradores sobre as provas para pedir a condenação de Lula no caso do tríplex do Guarujá, poucos dias antes da apresentação da denúncia.

O ex-presidente Lula Foto: Nacho Doce
Foto: Nacho Doce

Na série de três reportagens divulgada pelo site, procuradores da força-tarefa também mostraram indignação com a autorização para a “Folha de S. Paulo” entrevistar o ex-presidente Lula na prisão dias antes da eleição presidencial de 2018.

O ministro da Justiça, Sergio Moro Foto: MICHAEL DANTAS / AFP
Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

Em nota após a divulgação dos diálogos, Moro diz que não viu anormalidade em conteúdo: “Quanto ao conteúdo das mensagens que me citam, não se vislumbra qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado, apesar de terem sido retiradas de contexto e do sensacionalismo das matérias, que ignoram o gigantesco esquema de corrupção revelado pela Operação Lava-Jato”

Procurador da República Deltan Dallagnol Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo
Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo

A força-tarefa de Curitiba rebateu a reportagem, dizendo que “seus membros foram vítimas de ação criminosa de um hacker que praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança de seus integrantes”. Um dia após a publicação, o grupo de procuradores afirmou, em nova nota, que “apenas oferece acusações quando há provas consistentes dos crimes”.

O ministro Luiz Fux, vice-presidente do STF 02/10/2018 Foto: Jorge William / Agência O Globo
Foto: Jorge William / Agência O Globo

Três dias após a divulgação das primeiras conversas, o Intercept divulgou novos diálogos. Neles,Dallagnolafirmou aMoroque havia ouvido de Fux um apoio à Operação Lava-Jato. Moro, então, teria respondido com a frase em inglês “In Fux We Trust” (“Em Fux nós confiamos”).

O ministro da Justiça, Sergio Moro, fala em sessão na Câmara Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS
Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

Em novo posicionamento, , Moro disse que cometeu um “descuido formal” ao repassar, via Telegram, informação ao procurador Deltan Dallagnol, em meio às investigações da Lava-Jato: “No que se refere a algumas mensagens que podem ser autênticas. Eu não tenho como confirmar isso em 100%”.

O presidente Jair Bolsonaro e ministro Sergio Moro assistem a jogo entre Flamengo e CSA, em Brasília Foto: Jorge William 12/06/2019 / Agência O Globo
Foto: Jorge William 12/06/2019 / Agência O Globo
BSB - Brasília - Brasil - 28/11/2018 - PA - O futuro ministro daJustiça, Sérgio Moro durante chegada ao CCBB, onde está montado o gabinete de transição.
Foto: Jorge William / Agência O Globo Foto: Jorge William / Agência O Globo
Foto: Jorge William / Agência O Globo

Em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, Moro negou a existência de um “conluio” com a força-tarefa da Lava-Jato, afirmou que não há risco de ser anulado o processo do tríplex do Guarujá (SP), no qual o ex-presidente Lula foi condenado e declarou que não vai se afastar do cargo.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça Sergio Moro em cerimônia de assinatura de decreto que flexibilizou o porte de armas, no início de maio Foto: Agência O Globo
Foto: Agência O Globo

Em café da manhã com jornalistas, na sexta-feira posterior ao vazamento das conversas, Jair Bolsonaro disse que a saída de Moro do governo não foi cogitada “em nenhum momento”

Lula foi interrogado pelo juiz Sergio Moro no caso do tríplex do Guarujá em maio de 2017 Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Novas conversas apontam que o então juiz do caso teria sugerido aos integrantes do MPF emitir uma nota rebatendo a defesa deLula, após o interrogatório do petista feito por Moro, em 10 de maio de 2017. A nota acabou sendo divulgada pela força-tarefa, mas com foco diferente do sugerido por Moro

Procurador Carlos Fernando Lima, um dos coordenadores da Força-Tarefa da Lava-Jato Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo (15/08/2017)
Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo (15/08/2017)

Em conversa de Moro com o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, o então juiz afirma que os procuradores poderiam apontar as contradições do ex-presidente: “Talvez vocês devessem amanhã editar uma nota esclarecendo as contradições do depoimento com o resto das provas ou com o depoimento anterior dele. Porque a Defesa já fez o showzinho dela”, diz a mensagem.

O ministro da Justiça Sergio Moro em sessão na Câmara dos Deputados Foto: Jorge William / Agência O Globo
Foto: Jorge William / Agência O Globo

O ministério da Justiça disse em nova nota que não comentará supostas mensagens de autoridades públicas colhidas por meio de invasão criminosa de hackers e que podem ter sido adulteradas e editadas, especialmente sem análise prévia de autoridade independente que possa certificar a sua integridade.

Carlos Fernando dos Santos Lima, procurador do Ministério Público Federal, durante coletiva de imprensa da 41ª fase da Operação Lava-Jato Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo
Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo

Em nota, Santos Lima disse ao GLOBO que desconhece as mensagens citadas pela reportagem: “Desconheço completamente as mensagens citadas, supostamente obtidas por meio reconhecidamente criminoso, acreditando singular que o “órgão jornalístico” volte-se agora contra mim”.

Na madrugada de 5 de junho de 2017, numa conversa com o procurador Carlos Augusto da Silva Cazarré, Deltan relata que teve dois “encontros fortuitos” com o desembargador do TRF-4 e volta a citar a preocupação com as provas. “Falei com ele umas duas vezes, em encontros fortuitos, e ele mostrou preocupação em relação à prova de autoria sobre Assad”, escreveu o procurador. Deltan pede para o colega “sondar se absolverão Assad”:

“Se for esse o caso, talvez fosse melhor pedir para agilizar o acordo ao máximo para garantir a manutenção da condenação”, diz Deltan.

ANÁLISE

A volta da Lava-Jato à arena política

Cazarré responde que vai ver o que descobre: “Falei com ele (Gebran) há uns 2 meses, não achei q fosse absolver… Acho difícil adiar”. Deltan cita os encontros com Gebran e pede discrição ao colega procurador: “Só não menciona que comentei, para evitar ruído”.

No caso analisado pelo TRF-4, a defesa de Assad dizia que as empresas que teriam sido apontadas pelo MPF como recebedoras de propina haviam sido vendidas por Assad. Na primeira instância, o então juiz Sergio Moro concluiu que o doleiro permanecia no comando das companhias.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, ao lado do presidente da República, Jair Bolsonaro, durante cerimônia do 154º aniversário da Batalha Naval do Riachuelo, em Brasília, no dia 11 de junho. Primeiro encontro público entre Bolsonaro e Moro após a revelação de conversas do ex-juiz com o coordenador da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, pelo site
O ministro da Justiça, Sergio Moro, ao lado do presidente da República, Jair Bolsonaro, durante cerimônia do 154º aniversário da Batalha Naval do Riachuelo, em Brasília, no dia 11 de junho. Primeiro encontro público entre Bolsonaro e Moro após a revelação de conversas do ex-juiz com o coordenador da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, pelo site “The Intercept Brasil” Foto: EVARISTO SA / AFP
O ministro da Justiça, Sergio Moro, em 10 e junho, participa da abertura do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Justiça, Cidadania, Direitos Humanos e Administração Penitenciária, em Manaus. Moro respondeu a jornalistas sobre a publicação da reportagem do site
O ministro da Justiça, Sergio Moro, em 10 e junho, participa da abertura do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Justiça, Cidadania, Direitos Humanos e Administração Penitenciária, em Manaus. Moro respondeu a jornalistas sobre a publicação da reportagem do site “The Intercept Brasil” que divulga material, incluindo chats privados, gravações de áudio, vídeos e fotos trocados entre o ele e o Procurador Federal Deltan Dallagnol Foto: MICHAEL DANTAS / AFP
Sergio Moro participa do Seminário
Sergio Moro participa do Seminário “Fake News e as Eleições”, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasilia, em 16 de maio. Além dele, participaram os ministros do STF, Rosa Weber, Luiz Fux, e Claudia Gintersdorfer, chefe de Delegação Adjunta da União Europeia no Brasil Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Moro participa ao lado de Bolsonaro da assinatura do decreto que flexibilizou o porte e a posse de armas, em 7 de maio. O ministro disse, no entanto, que o decreto não faz parte de uma política de segurança Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Moro participa ao lado de Bolsonaro da assinatura do decreto que flexibilizou o porte e a posse de armas, em 7 de maio. O ministro disse, no entanto, que o decreto não faz parte de uma política de segurança Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
No dia 4 de fevereiro, o ministro apresentou a proposta de projeto de lei que elaborou para fortalecer o combate à corrupção, aos crimes violentos e à criminalidade organizada, com mudanças em 12 leis e nos códigos Penal e de Execução Penal Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
No dia 4 de fevereiro, o ministro apresentou a proposta de projeto de lei que elaborou para fortalecer o combate à corrupção, aos crimes violentos e à criminalidade organizada, com mudanças em 12 leis e nos códigos Penal e de Execução Penal Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Moro discute com parlamentares pontos de seu pacote anticrime, que muda artigos do Código Penal e endurece leis de combate ao crime organizado Foto: Jorge William / Agência O Globo
Moro discute com parlamentares pontos de seu pacote anticrime, que muda artigos do Código Penal e endurece leis de combate ao crime organizado Foto: Jorge William / Agência O Globo
Um dos primeiros compromissos de Moro como ministro da Justiça foi sua participação no Fórum de Davos, onde negou que o governo Bolsonaro faça populismo sobre corrupção e defendeu um pacto empresarial no Brasil contra subornos. Foto: FABRICE COFFRINI / AFP
Um dos primeiros compromissos de Moro como ministro da Justiça foi sua participação no Fórum de Davos, onde negou que o governo Bolsonaro faça populismo sobre corrupção e defendeu um pacto empresarial no Brasil contra subornos. Foto: FABRICE COFFRINI / AFP
O Ministério da Justiça cresceu com Moro. A pasta da Segurança Pública, criada pelo ex-presidente Michel Temer, e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que estava no Ministério da Fazenda foram incorporados ao ministério Foto: Jorge William / Jorge William
O Ministério da Justiça cresceu com Moro. A pasta da Segurança Pública, criada pelo ex-presidente Michel Temer, e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que estava no Ministério da Fazenda foram incorporados ao ministério Foto: Jorge William / Jorge William
Antes mesmo de assumir, Moro convidou para a Secretaria Nacional de Seguranca o general Guilherme Theophilo, filiado ao PSDB Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Antes mesmo de assumir, Moro convidou para a Secretaria Nacional de Seguranca o general Guilherme Theophilo, filiado ao PSDB Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Em entrevista coletiva, Moro anuncia que decidiu deixar a magistratura após 22 anos de carreira e assumir o cargo de ministro da Justiça de Jair Bolsonaro Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo
Em entrevista coletiva, Moro anuncia que decidiu deixar a magistratura após 22 anos de carreira e assumir o cargo de ministro da Justiça de Jair Bolsonaro Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo
Moro durante viagem ao Rio para se encontrar com Bolsonaro e receber o convite para ser ministro Foto: Foto de leitor 01/11/2018
Moro durante viagem ao Rio para se encontrar com Bolsonaro e receber o convite para ser ministro Foto: Foto de leitor 01/11/2018
Moro foi criticado por divulgar parte da delação do ex-ministro Antonio Palocci durante a campanha eleitoral de 2018 Foto: Reprodução
Moro foi criticado por divulgar parte da delação do ex-ministro Antonio Palocci durante a campanha eleitoral de 2018 Foto: Reprodução
Com o juiz da Lava-Jato do Rio, Marcelo Bretas, Moro assista à pré-estreia do filme sobre a Lava-Jato Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo
Com o juiz da Lava-Jato do Rio, Marcelo Bretas, Moro assista à pré-estreia do filme sobre a Lava-Jato Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo
Ex-presidente Lula presta depoimento a Moro, na Justiça Federal de Curitiba Foto: Reprodução
Ex-presidente Lula presta depoimento a Moro, na Justiça Federal de Curitiba Foto: Reprodução
Em Nova York, Moro e a mulher Rosângela Wolff Moro com João Doria e esposa Bia Doria, durante o prêmio Personalidades do Ano Foto: Divulgação
Em Nova York, Moro e a mulher Rosângela Wolff Moro com João Doria e esposa Bia Doria, durante o prêmio Personalidades do Ano Foto: Divulgação
Em abril de 2017, Moro foi homenageado pelo então presidente Michel Temer Foto: Ailton de Freitas / Ailton Freitas
Em abril de 2017, Moro foi homenageado pelo então presidente Michel Temer Foto: Ailton de Freitas / Ailton Freitas
Em dezembro de 2016, Moro vai ao Senado para debater o projeto de lei sobre abuso de autoridade, defendida pelo então presidente da Casa, Renan Calheiros e criticado pela força-tarefa da Lava-Jato Foto: André Coelho / Agência O Globo 01/12/2016
Em dezembro de 2016, Moro vai ao Senado para debater o projeto de lei sobre abuso de autoridade, defendida pelo então presidente da Casa, Renan Calheiros e criticado pela força-tarefa da Lava-Jato Foto: André Coelho / Agência O Globo 01/12/2016
Sergio Moro, em seu gabinete na 13ª Vara Federal de Curitiba 12/12/2017 Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo
Sergio Moro, em seu gabinete na 13ª Vara Federal de Curitiba 12/12/2017 Foto: Geraldo Bubniak / Agência O Globo

Em seu relatório, Gebran adiciona provas que não constavam na sentença feita por Moro: depoimentos do dono da UTC, Ricardo Pessoa. A delação do empresário ainda estava em sigilo quando Assad foi condenado em primeira instância. A colaboração do doleiro foi assinada dois meses depois, em agosto de 2017.

Dallagnol não quis se manifestar sobre o caso, segundo a “Veja”. O MPF também não se posicionou, mas, em relação às reportagens feitas com base no vazamento de mensagens obtidas pelo “The Intercept” tem dito que os procuradores têm sido vítima de crime:

“As supostas mensagens atribuídas a integrantes da força-tarefa são oriundas de crime cibernético e não puderam ter seu contexto e veracidade verificados. Diversas dessas supostas mensagens têm sido usadas, editadas ou descontextualizadas, para embasar falsas acusações que contrastam com a realidade dos fatos.”

Gebran respondeu às questões enviadas pela revista: “Em relação ao réu Adir Assad (ou qualquer outro réu), trata-se de questão processual e que somente autoriza manifestação nos autos, pelo que nunca externei opinião ou antecipei minha convicção sobre qualquer processo em julgamento.”

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