fbpx
Cidades

‘Reconheço que errei ao não fazer interlocução com presidentes de partidos’, diz general Ramos


BRASÍLIA – Sete meses à frente daarticulação políticado governo, o ministroLuiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, precisou da calmaria do recesso parlamentar de janeiro para reconsiderar a maneira como dialoga com o Congresso.

— Eu reconheço, e não tenho vergonha de falar, um dos erros foi que não tive interlocução com presidentes de partidos — afirmou, Ramos, admitindo ter dado início a uma rodada de conversas com líderes das legendas, começando por aqueles do chamado centrão — entre os quais Ciro Nogueira, do PP, Gilberto Kassab, do PSD, e Marcos Pereira, do Republicanos —, contrariando uma a das premissas de Bolsonaro no início de seu governo.

Articulação: General Ramos diz que trocas no governo Bolsonaro cessaram e cita confiança em Braga Netto

Ramos nega, no entanto, que o movimento seja a porta de entrada para a retomada do chamado presidencialismo de coalizão com vistas à formação de uma consolidada base de apoio no Congresso.

Conheça:  Quem é o general convidado por Bolsonaro para assumir o comando da Casa Civil

Fortalecido no Palácio do Planalto após conseguir emplacar um amigo de longa data,  o também militar Walter Souza Braga Netto, no lugar de Onyx Lorenzoni na Casa Civil, recebeu O GLOBO em seu gabinete no quarto andar do Planalto, uma hora depois de o presidente Jair Bolsonaro ter oficializado a troca na equipe ministerial pelas redes sociais. Embora refute a pecha de conselheiro de Bolsonaro, Ramos diz que, quanto mais a imprensa diz que pode sair do cargo, mais próximo ele fica do presidente. 

O senhor está mais confortável hoje para lidar e negociar com o Congresso?

Muito mais confortável. O cara começa a namorar e não pode avançar o sinal no segundo mês. Primeiro são rosas. [O secretário-executivo da pasta interrompe para dizer que, nesta semana, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), esteve no gabinete de Ramos para tomar caldo de cana e comer pastel]. O Rodrigo Maia, outro dia, me ligou, era um domingo e me chamou para ir à casa dele com a sua esposa comer uma pizza. São coisas que não tinham. Eu converso com eles agora, eles são sinceros comigo. Sou muito sincero, e isso não é falsa humildade, ninguém me conhecia. 

Fomos no Rodrigo Maia mostrar os projetos importantes até junho. Fomos no Davi Alcolumbre. Eles estão com essa pauta. A Economia chegou hoje com a pauta dela. Coisa que eu não fiz ano passado. Eu cheguei aqui, era reforma da Previdência, não conseguia ver mais nada. Agora, não. A minha esperança é ter um ano mais sereno, mais organizado, porque nós estamos realmente preparados para o que vai vir.

O presidente tem falado. Eu estava no almoço com ele lá no Palácio do Alvorada com os chefes de Poder. O presidente da República, os presidentes da Câmara e do Senado, o presidente do STF, do TCU, se quiserem, mudam o país. Não precisa ter toma lá, dá cá. Eles mudam o país. 

Nas conversas que o senhor tem tido com presidentes de partidos tem feito um discurso de mea-culpa? De admitir que errou ao não se aproximar deles antes?

É verdade. Errei. Quem manda? É o presidente do partido. Tem que continuar falando com os líderes, é importante, me dou bem com todos. Agora, não é quem manda, mas o cara importante é o presidente do partido. Quem teria que falar com os líderes é o líder do governo, Major Vitor Hugo (PSL-GO). 

O senhor vai mudar a postura e parar de receber todo mundo?

Lógico que não. Tem gente que acha ruim, inclusive aqui no Palácio, eu, como ministro sair daqui e ir andar lá no Congresso. Acham que é perigoso, que me apequeno e me exponho. Eu não acho. É minha característica. 

E por que essa relação com os partidos se torna importante a partir de agora?

Para que nós tenhamos um ano diferente do ano de 2019. 

Mas o ano de 2019 não foi bom?

Foi muito bom, só que (2020) é um ano mais curto, que vai acabar em junho (por causa das eleições municipais). Nós já estamos em março, vem o carnaval. Então, na realidade, eu tenho quatro meses no máximo. Preciso ter todas as ferramentas e os presidentes dos partidos são fundamentais para isso. 

O senhor fará um governo de presidencialismo de coalizão?

Não, não tem jeito. Vocês têm a prova maior: o Osmar Terra é do MDB. Ele saiu e o Onyx foi para lá. Qual é a coalizão? Seria coalizão se, tirasse o Osmar Terra, mandasse o Onyx para a Câmara e colocasse o Wellington Roberto, líder do PL, para ser ministro. O discurso dele [presidente] não mudou. A prova é essa mudança, que não tem indicação política.

Agora, eu reconheço, e não tenho vergonha de falar, um dos erros foi que não tive interlocução com presidentes de partidos. E estou tendo um retorno, surpreendentemente, positivo dos presidentes de partidos com quem tenho conversado. Não há nenhum pedido deles, nenhuma imposição minha, apenas precisamos dialogar.

Como ficou a promessa de liberar R$ 40 milhões de recursos para aprovar a reforma da Previdência? 

Foi feito, dentro do previsto, uma previsão de créditos suplementares de acordo com o Orçamento. Não tem esse dinheiro para todo mundo, porque é um troço impossível R$ 40 milhões para cada parlamentar. Isso não aconteceu. Dentro do crédito suplementar, nós honramos algumas coisas dentro das políticas públicas. O toma lá, dá cá no passado era assim: o parlamentar pedia e o dinheiro saía. Não se sabia se tinha projeto, se a cidade precisava mesmo daquele hospital. Há até casos que o cara pedia para fazer ponte em uma cidade que não tinha rio. Esse tipo de descontrole no governo Bolsonaro acabou. Para entender como são ligeiros: três horas após noticiarem a exoneração do presidente da Funasa, já tinha partido me ligando para indicar deputado ao cargo. Mas não é toma lá, dá cá. Se não eu mandaria exonerar todo mundo e vamos ver quem dá mais. 

Com Braga Netto, a Casa Civil vai continuar esvaziada? Como deve ser a relação?

Vai ser da mesma forma que foi com o Onyx Lorenzoni, com uma diferença: eu conhecia o Onyx desde 2003, o Braga Netto eu conheço desde 1976. Acredito que, pela relação que eu tenho com o Braga Netto, vai ser muito bom.

Mas haverá alguma modificação na estrutura da Casa Civil?

A função em que ele estava era chefe do Estado-Maior do Exército, o encarregado de coordenar, acompanhar e verificar tudo o que os departamentos estão fazendo, de engenharia e construção, de pessoal, do serviço militar, ou seja, ministérios. Então ele já tem a gestão administrativa que é necessária ter um rumo, uma coordenação. “Ah, o Onyx não fazia isso?” Fazia, mas sempre tem um pouco do viés político, é natural. O Braga Netto, como militar, tem essa capacidade e é mais analítico, mais frio.

A relação com Onyx estava desgastada?

Eu e Onyx nos damos muito bem. Eu já não diria no segundo, terceiro escalão. Tinha gente de lá que vazava. Várias vezes eu fui lá no Onyx, a gente se abraçou. 

O Planalto não será mais serpentário?

Do Braga Netto? Não, do Braga Netto, não. 

Como fica o Planalto só com militares no comando? 

Nada. Não muda nada, sinceramente. Militar tem a característica de ser muito quadradinho, mais cartesiano. E é o que o presidente quer, né? É natural. O político tem que pensar em política […] Um vereador quer ser prefeito, o prefeito sonha em ser deputado federal. Ele pensa em política. Um militar é cumpridor de ordens. “Ah, mas o Onyx fazia isso?”. O Onyx, por ser político, tinha sempre esse movimento político, natural.

Teremos mais mudanças ministeriais? 

Nenhuma, esquece. Enfiem na cabeça que o ministro da Educação [Abraham Weintraub] não sai. O ministro da Educação sabe que tem o apoio do presidente.

E o Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo, continua?

Marcelo Álvaro continua, o presidente está muito satisfeito com o trabalho dele. E, realmente, ele tem dado atualmente resultados muito positivos.

O presidente pediu a Regina Duarte para seguir alguma orientação ideológica? 

Não, o que ele diz é que não quer com o dinheiro público, que a pessoa faça um filme sobre alguma causa de aborto ou LGBT. Não é que ele seja contra, mas ele acha que dinheiro público não é para isso. Nem para filme radical de direita. Ele quer investir em história, coisa que Regina também quer. Ele não vai bancar um filme pregando aborto. E a Regina me disse que nunca faria isso. Você acha que, com dinheiro público, dá para o governo fazer uma peça Porta dos Fundos, onde Nossa Senhora é prostituta e Jesus é homossexual? Eu morei em Israel dois anos. Vai fazer um negócio desse num país Árabe ou judeu. Tenta. É morte na rua. Isso não é liberdade de expressão. Isso é não respeitar a religião de grande parte da população. 

Mas não há um temor de que isso seja considerado censura?

Não é censura. Estão dizendo para Regina que o presidente mandou proibir o filme do Marighella, que escreveu o Manual do Guerrilheiro Urbano, que orienta matar, sequestrar. Onde está escrito que não é para veicular o filme? Disseram que o presidente proibiu. Proibiu nada. 

Quais são os novos planos para a comunicação e para o porta-voz? 

O maior porta-voz do governo é o presidente Bolsonaro. O Rêgo Barros presta assessoramento à Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência), mas ele se retraiu um pouco porque o  maior megafone desse governo é o Bolsonaro. Em alguns termos específicos na Secom ainda tem usado o Rêgo Barros. E ele está bem, tem ajudado. 

O secretário Fabio Wajngarten enfrenta processo de investigação por conflito de interesse. Ele continua à frente da Secom? 

O Fábio não é bandido. Vocês ainda não perceberam o seguinte: não é o Fábio que está passando por um processo. Minha preocupação, como ministro, é que o sistema do governo, na seleção possa ter cometido algum erro. Quando um empresário quer fazer parte do governo, é orientado sobre o que tem de fazer. Não pode isso, não pode aquilo. 

Mas ele sonegou informação ao Conselho de Ética?

Não sonegou. A Comissão de Ética disse que não podia estar à frente. Ele saiu. Mas antes ninguém falou sobre parentes. No dia que ele fez aquela declaração, eu fui assessorado, e ainda bem, porque as pessoas são muito leais: “Ô, ministro, o senhor vai ficar em pé aí, vai respingar no senhor”. Eu falei que a minha formação é nunca abandonar meus soldados até eles provarem o contrário. Eu fiz de propósito, fiz intencional, e até agora… Ele não precisa disso. Ele é rico, a família dele é judia, o pai dele é médico. Eu tenho certeza que ao final do processo a imprensa verá que o Fabio não tem nada a ver com isso.

Como a morte do ex-policial Adriano da Nóbrega, assunto que envolve Flávio Bolsonaro, filho do presidente, tem respingado no governo?

O que eu sei é pela imprensa. O que causa apreensão é que iam queimar rapidamente o corpo e mandaram segurar. Consta que ele foi assassinado. A polícia está chegando, o cara levanta o braço, e mesmo assim atiram nele. Não há uma condenação efetiva. Agora, o presidente Bolsonaro tira foto com muita gente. Ele corre o risco porque já tirou mais de mil fotos. Não existe milícia. Há uma obsessão, não é o Flávio, não é o Carlos, é o presidente Bolsonaro. Uma pessoa da mídia me falou que a imprensa ainda não digeriu, após um ano que se passou, a vitória de Bolsonaro.

Leia Mais

Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar