Uma carta para minha amiga que acaba de se tornar mamãe

Amiga,

Há pouco, eu olhava as fotos do seu filho na rede social. Ele é realmente uma graça! Lindo, sereno, com o olhar curioso e cheio de dobrinhas. Mas aí lembrei que você estava do outro lado do celular, talvez descabelada e com olheiras, e senti a mais profunda empatia. Não porque esteja exausta, embora também, mas pelo estado de confusão mental em que ficamos com a chegada dos filhos.

Não existe aviso, leitura, curso preparatório ou roda de gestante capaz de antecipar o redemoinho que se instala com o nascimento da criança – mesmo as imensamente desejadas. Comigo foi assim: eu quis engravidar, o parto foi ótimo e meu filho nasceu saudável. E mesmo com esse “pacote perfeito”, eu chorava todos os dias durante o primeiro mês.

Não é apenas uma questão hormonal, como você já deve saber. Acontece que, quando eles nascem, aquela mulher de antes morre um pouquinho. E ela precisa morrer, para dar lugar a uma mulher mãe. Mas o luto por isso… ah, esse demora para passar.

Não ajuda em nada, como você já deve ter percebido, a forma como as pessoas em geral tratam as recém-paridas. Especialmente no caso do primeiro filho. Ninguém nos pergunta mais como estamos, se precisamos de algo. Ninguém oferece nem um docinho! Justamente agora, que mais temos fome na madrugada. Justamente agora, que não cabemos mais na pessoa de antes. Lembro de a família e as visitas ficarem babando no bebê e eu ter vontade de dizer: ei, isso só é possível porque a cabeça dele passou pela minha vagina!

Se fosse só o parto, estava tranquilo. Mas, nos meses (anos) seguintes, continuamos sentindo em nossa pele e ossos o peso da maternidade, literalmente! E, salvo raras exceções, quase não ouvimos “calma, está tudo bem. Você está fazendo um bom trabalho.” Parece que o enternecimento foi cortado junto com o cordão umbilical.

Amiga, mesmo que a sociedade insista em te dizer o contrário, você segue sendo dona de si. Então, se você quiser explodir, vá em frente! Chore! Se amamentar virou um tormento, deixe isso para lá. Não faz sentido transformar em tortura algo que é para ser apenas bom. E existem mil outras formas de trocar afeto com os filhos. Bebês criados com mamadeira e fórmula não são menos amados, nem suas mães, menos amorosas. Não deixe que te façam acreditar no contrário.

Vou te contar um segredo. Sempre que me sinto perdida e uma merda de mãe (acontece com mais frequência do que gostaria, infelizmente), procuro lembrar que não há criança feliz sem uma mãe feliz. Às vezes, fugir do “script” da mãe perfeita te fará não apenas satisfeita, mas também sã.

Então, amiga, cuide-se! Você está no meio do mergulho, e as as coisas são turvas… mas vai passar! Tenho certeza que você renascerá ainda mais forte e brilhante – e eu serei uma amiga orgulhosa disso.


Fonte: Metropoles
Author: Carolina Vicentin

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